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O lote destinado a esta residência paulistana é pleno de dificuldades e sugestões. Ao contrário de tantas outras situações de largueza encontradas em condomínios periurbanos, aqui a exigüidade e a singularidade do terreno são fonte inspiradora de critérios simbólicos e funcionais: a vizinhança construída, tangível e ruidosa, o horizonte indefinidamente urbano; não há frente nem fundos, apenas lados irregulares e o formato em cotovelo aberto, comunicando ruas perpendiculares em desnível suave, espécie de passagem quebrada, de prega. Qualquer intervenção que aí se quiser interpor de modo a restabelecer continuidade e fluidez deverá necessariamente esgueirar-se, contorcer-se, ricochetear. E é o que justamente se verifica.
A longa divisa lateral externa, relativamente à angulação, é transformada em tapume que neutraliza as interferências aleatórias dos lotes contíguos. O muro azul com 6,20 m de altura define cenograficamente uma primeira continuidade, unificando os ambientes pela onipresença de sua referência visual e pela reflexão azulada da luz do sol que penetra através dos recuos regulamentares.(...) O essencial do programa está equacionado num bloco linear onde os ambientes íntimos se sobrepõem às dependências destinadas às refeições e serviços. Desenvolvendo-se entre os recuos laterais ajardinados do tramo principal do lote, esse volume ajusta-se à presença da rótula constituída pelo jardim interno através do encurvamento contínuo e suave de sua fachada principal, que se projeta em direção à outra frente do terreno, aí definindo o ambiente de estar principal em pé-direito duplo.

CALDEIRA, Vasco – Casa do Muro Azul.

In: CALDEIRA, Vasco; FANUCCI, Francisco; FERRAZ, Marcelo; SANTOS, Cecilia Rodrigues dos – Francisco Fanucci, Marcelo Ferraz: Brasil Arquitetura. São Paulo: Cosac Naify, 2005.

 
     
 
 
 
 
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