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Não há, no desenho desta residência para o bairro paulistano de City Boaçava, à exceção das escadas metálicas e da lareira alentejana com piso de pedras negras, um só traço que escape da ortogonalidade pura e simples. Mesmo as coberturas dos volumes são planas e transformadas em espelhos-d’água termoisolantes habitados por carpas. Essa austeridade antiformalista, sem dúvida tributária de alguns aspectos marcantes da chamada escola paulista de arquitetura, em cujo rigor disciplinar se formam os autores, é entretanto matizada de modo muito particular por irrupções de lirismo e evocações vernaculares.(...)

(...)O programa se organiza segundo blocos funcionais volumetricamente diferenciados e funcionalmente demarcados quanto à natureza dos seus usos, tendo em vista um gradiente público/privado sem lacunas: estar e biblioteca sociais, escritório e sala de jantar intermediários, dormitórios, cozinha e convívio íntimos. Desde a frente até os fundos, o itinerário começa por uma vitrine junto ao acesso principal da casa. Trata-se de um viveiro de pássaros que prenuncia outros ingredientes vernaculares incorporados mais além. O volume laminar intercepta lateralmente o volume compacto do salão de estar de pé-direito duplo, transformando-se internamente em jirau-passarela, junto ao qual se acomoda, em dois níveis superpostos, a biblioteca, enquanto o percurso prossegue rumo aos quartos. Antes disso, ao passar sobre o escritório, ganha ares de galeria envidraçada, espécie de hiato entre os blocos da frente e dos fundos, dando para um pátio interno por onde se alcançam as coberturas desfrutáveis. Em pleno território da intimidade doméstica, o eixo de circulação se materializa como corredor avarandado, completando, do quarto de hóspedes à suíte dos proprietários, o roteiro dessa interiorização progressiva.


Se no piso superior o eixo tudo subordina, no piso inferior e nas áreas externas ajardinadas os espaços se comunicam de maneira fluida, através de uma integração visual controlada por sutis deslocamentos, pausas, diferenciações no tratamento das superfícies e aberturas, sempre no sentido de uma acomodação empírica do vivenciado, de uma individualização dos ambientes que rechaça o continuum espacial isotrópico dos racionalismos mais dogmáticos.

CALDEIRA, Vasco – Casa Ubiracica.

In: CALDEIRA, Vasco; FANUCCI, Francisco; FERRAZ, Marcelo; SANTOS, Cecilia Rodrigues dos – Francisco Fanucci, Marcelo Ferraz: Brasil Arquitetura. São Paulo: Cosac Naify, 2005.

 
     
 
Planta Primeiro Pavimento    
 
 
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